Dr. Sayyid ‘Issam ‘Ali Yahya al-‘Imad

Dr. Sayyid ‘Issam ‘Ali Yahya al-‘Imad

Dr. ‘Issam ‘Ali Yahya al-‘Imad

Nascimento e formação

Nasceu em 1968, no Iêmen, na cidade de Ibb, aldeia al-Ṣabbār. Cresceu numa família sunita influenciada pela corrente salafi-wahhabita(1). Prosseguiu os estudos acadêmicos até obter a licenciatura no Departamento de Estudos Islâmicos, depois o mestrado e, em seguida, o doutorado em Ciências do Alcorão e do Hadith.

No âmbito religioso, além do percurso acadêmico, estudou o madhab wahhabita em institutos religiosos, entre eles o Instituto Científico de Sana‘a (o maior instituto wahhabita do Iêmen), onde concluiu o secundário – seção jurídica. Memorou dez partes do Alcorão; estudou com sábios do Iêmen em mesquitas e assistiu a aulas de figuras proeminentes em Sana‘a, entre elas o ‘Allāma al-‘Imrānī na Mesquita al-Zubairi. Lecionou fiqh salafi, ensinando o Fiqh al-Sunna na Mesquita al-Astà; atuou como pregador em mesquitas de Sana‘a, proferindo o sermão de sexta-feira na Mesquita al-Astà e, às vezes, na Mesquita Bāb al-Qā‘. Viajou à Arábia Saudita, ingressou na Faculdade de Usul al-Din – seção de Hadith da Universidade Imã Muhammad ibn Saud e permaneceu no país por mais de um ano, durante o qual assistiu a algumas aulas do mufti do reino, Ibn Bāz.

Sua percepção anterior sobre o xiismo

A única fonte de informação do Dr. ‘Issam sobre o xiismo eram os livros de Ihsan Ilahi Zahiri, Muhammad Māl Allāh e Muhibb al-Din al-Khatib. Assim, formou-se em sua mente uma imagem negativa do madhab, e, pela acumulação dessas representações distorcidas, encheu-se seu coração de aversão ao xiismo e aos xiitas. Criado nessa orientação, seu repúdio levou-o a escrever um livro contra os xiitas intitulado: “A relação entre os xiitas e o exagero (ghulū)”(2).

Reconsiderando o xiismo

O primeiro episódio que o levou a rever sua avaliação do xiismo foi ter-lhe chegado às mãos o livro “Al-Imam al-Sadiq” de Muhammad Abu Zahra. Embora contivesse críticas ao madhab ja‘farita, o livro debateu fundamentos e crenças xiitas com objetividade, em contraste com o tom de Ihsan Ilahi Zahiri e outros, cujos escritos abundavam em metodologias não objetivas e desprovidas de equilíbrio. A partir daí decidiu adotar o método de Abu Zahra no estudo do xiismo, iniciando uma pesquisa sem sectarismo. Deparou-se então com a revista egípcia antiga “Risālat al-Islām”, na qual encontrou estudos sobre o tema.

A primeira surpresa na pesquisa

Diz o Dr. ‘Issam: “O maior choque, ao pesquisar o xiismo, foi ler a fatwa do Imam Mahmoud Shaltut, na qual afirmou que os xiitas são muçulmanos e que o madhab doze-imamita é o quinto madhab no Islã.” Surpreso com a fatwa, decidiu aprofundar o estudo para compreender as razões de Shaltut. Em 1988, embora matriculado na Universidade Imã Muhammad ibn Saud, frequentava a Universidade Rei Saud por morar próximo, em al-Dir‘iyya. Na biblioteca desta havia uma seção da Liga de Aproximação entre as Escolas Islâmicas, com um acervo sobre os xiitas ja‘faritas. Passou a ler tais obras, mas percebeu, com o tempo, que não bastavam, por adotarem métodos superficiais e parciais, visando distorcer a imagem do xiismo. Concluiu gradualmente que alguns sábios sunitas confundiram xiitas com exagerados (ghulāt), sem distinguir xiismo de exagero.

Descobrindo a verdade

O Dr. ‘Issam percebeu que os eruditos do jarḥ wa ta‘dīl não tratavam o Imam ‘Ali (a.s.) como tratavam outros Companheiros. Notou viés em benefício de Companheiros em geral, ausente quando se tratava da figura de ‘Ali. Viu-o injustiçado, pois muitos evitavam defendê-lo com receio de serem taxados de xiitas. Pesquisou o fenômeno, remexeu a história e encontrou suas raízes na dinastia omíada: muitos eruditos caíram na armadilha armada por ela e seguiram sua linha no trato com a Escola da Ahl al-Bayt (a.s.). Assim, tomou ciência da conspiração para afastar a Ahl al-Bayt da cena e apartar a Umma do Hadith dos Dois Legados (al-Thaqalayn) — “o Livro de Deus e minha Família” — e do hadith dos doze e outros.

Entre as evidências de tal viés, notou, nas aulas do sábio wahhabita Muhammad b. Isma‘il al-‘Imrānī, que ele citava dezenas de juristas ao tratar de uma questão, e ao final dizia: “E foi dito que alguns da Ahl al-Bayt opinaram tal e tal.” A maioria dos presentes reagiam fortemente quando opinões da Ahl al-Bayt eram mencionadas, não suportando ouvi-las. Sentiu, então, como se a era omíada ainda dominasse o ambiente com sua cultura adversa à Ahl al-Bayt. Perguntou-se: por que ouvimos todos os eruditos, mas não suportamos ouvir a Ahl al-Bayt? Essas indagações cresceram até impulsioná-lo a uma pesquisa aprofundada sobre a Escola da Ahl al-Bayt.

Adoção do xiismo

Ao encontrar no madhab da Ahl al-Bayt o que buscava, não suportou permanecer na antiga filiação. Estando na Universidade Imã Muhammad ibn Saud, mudou sua adesão doutrinária e abraçou o madhab da Ahl al-Bayt (a.s.). Decidiu então deixar a universidade e migrar para um ambiente que fortalecesse seus vínculos com a nova crença, imposta pelas provas. Voltou ao Iêmen, depois viajou à Síria e ingressou na hawza de Sayyida Zaynab (Damasco). Após curto período, viajou ao Irã em 1990, ingressando na hawza de Qom; estudou preliminares e “superfícies” até alcançar o nível de bahth al-khārij. É considerado o aluno mais antigo a chegar ao Irã para estudo.

Após amadurecer no saber, iniciou-se na divulgação: ensinou ciências da Ahl al-Bayt na hawza, passou à produção escrita e debateu sunitas para expor as verdades a que chegara. Entre tais debates, destaca-se o travado com o xeique ‘Uthman al-Khamis, referido adiante.

Obras

  1. “Minha viagem do wahhabismo ao doze-imamismo”.
  2. “O novo e correto método no diálogo com os wahhabitas”, tentativa de aproximação entre doze-imamitas e wahhabitas.
    Editor: Mu’assasat al-Kawthar li’l-Ma‘ārif al-Islāmiyya, 1ª ed., 1422 H.
    Inclui tópicos como: como apresentar o madhab doze-imamita aos wahhabitas; o problema da confusão entre wahhabitas; a posição dos doze-imamitas face às concepções idolátricas dos exagerados.

Um olhar sobre O novo e correto método no diálogo com os wahhabitas

“Este livro busca corrigir alguns problemas dos diálogos entre doze-imamitas e wahhabitas, com base em minha experiência de mais de doze anos debatendo com wahhabitas e em minha antiga pertença ao wahhabismo. Estudei com seus grandes no Iêmen e na Arábia Saudita; fui extremamente sectário, a ponto de escrever um livro takfirista sobre os doze-imamitas (A relação entre os doze-imamitas e as seitas exageradas). Depois, ao deixar o wahhabismo, escrevi ‘As verdades e características do madhab doze-imamita’ (ou ‘Minha viagem do wahhabismo ao doze-imamismo’). Falo, portanto, desde dentro.”

Algumas diretrizes do diálogo

É crucial restringir o diálogo com wahhabitas a dois pontos necessários e um terceiro adicional:

  1. Foco micro: convencer o interlocutor a discutir uma só ayah ou um só hadith, um ponto dentro deles — progressão lenta (de ayah em ayah; de hadith em hadith).
  2. Eixo obrigatório: Hadith al-Thaqalayn. Discutir outras virtudes de ‘Ali levará à réplica: “há virtudes para outros também”. O Thaqalayn determina o apego obrigatório. Se exigirem Alcorão, comece com a Ayat al-Tathīr (33:33), pela sua conexão com o Hadith do Manto e o Thaqalayn.
  3. Discutir o papel dos omíadas no afastamento entre Ahl al-Sunna e Ahl al-Bayt.

Evitar temas distrativos lançados por wahhabitas (p. ex., a “lenda” de outro Alcorão entre os doze-imamitas). Segundo o autor, estudos indutivos mostraram que o Hadith al-Thaqalayn é a principal causa das transições de wahhabitas/sunitas ao doze-imamismo.

Antes do diálogo, o wahhabita deve afirmar que os doze-imamitas são uma escola islâmica segundo os próprios sunitas; se insistir no takfir, sai do método sunita e o debate se inviabiliza.

Quanto aos Companheiros, a questão não deve anteceder o Thaqalayn; problemas em torno dos Companheiros nasceram do descumprimento do Thaqalayn. Após ele, passam-se ao Hadith do Manto e ao dos dozetrês textos que mais levaram à mudança de madhab.

Etapas do método

Fase 1 – conhecimento “de pertencimento” do madhab doze-imamita:
– causas da confusão entre doze-imamitas e ghulāt entre os wahhabitas:
(1) ignorância do significado de ghulū; (2) ignorância do madhab doze-imamita; (3) ignorância da posição do madhab quanto ao ghulū e aos exagerados.
– fatores ligados à natureza do grupo wahhabita: (4) modo de pensar; (5) afastamento do método sunita no trato com o madhab doze-imamita.

Fase 2 – conhecimento analítico:
Quatro verdades: (1) divindade e profecia; (2) leis e normas; (3) fins do madhab; (4) sentido de certos termos internos.

Fase 3 – conhecimento radical (de raiz):
Quatro verdades: (5) fontes do madhab; (6) Imamato; (7) identidade; (8) origem e causas da origem.
Após as fases, estudam-se as características do madhab:
– (a) centralidade equilibrada no trato com a Ahl al-Bayt;
– (b) realismo no trato com os Companheiros;
– (c) Ocultação do décimo-segundo Imam.

Sobre o conceito de ghulū (exagero)

O autor observa que livros wahhabitas ampliaram indevidamente o conceito de ghulū. É preciso distinguir entre:
ghulū teológico que implica divinização do humano ou humanização do divino (crenças de encarnação/união etc.) — tratado nas leis de apostasia;
– o uso terminológico de “ghālī” na crítica de narradores, muitas vezes ligado a questões secundárias, p. ex. preferência entre Companheiros.
A confusão leva a rotular como apóstatas muitos narradores ou até ash‘aritas/maturiditas e doze-imamitas, o que explica campanhas agressivas contra estes.

O futuro do madhab doze-imamita

O autor sustenta que, apresentado corretamente, o madhab atrairá até opositores, pois sua força intrínseca e equilíbrio revelam as verdades do Islã. Cita declarações de autores wahhabitas (p. ex., ‘Ali al-Sallus, Rabi‘ b. Muhammad, Nasir al-Qaffari, ‘Abd Allah al-Ghunayman, Muhammad b. ‘Abd al-Rahman al-Maghrāwī) reconhecendo a amplitude e expansão do doze-imamismo, inclusive no Ocidente, concluindo que muitos retornarão a ele quando compreenderem suas características.

“Deus auxilia a religião da verdade e a faz prevalecer sobre toda a religião” (al-Ṣaff, 9).

Uma pausa sobre o debate do Dr. ‘Issam al-‘Imad com o xeique ‘Uthman al-Khamis

Importância do debate entre xiitas e sunitas

Diante do assalto cultural contra o mundo islâmico, os muçulmanos necessitam de palavras que unam. Isso se dá por debates saudáveis, baseados em regras corretas, que purifiquem a crença de enxertos polêmicos históricos.

Condições de uma controvérsia construtiva

  1. Base comum e linguagem compartilhada; argumentar a partir dos princípios do interlocutor.
  2. Controle da ira e das emoções.
  3. Entender o diálogo como cooperação, não guerra; não é imperativo haver vencedor/perdedor.
  4. Confiança mútua e ambiente para franqueza.
  5. Separar a ideia equivocada da pessoa; buscar orientar, não destruir.
  6. Evitar sofismas, evasivas, trocas de assunto, equívocos semânticos, citações truncadas etc.

Preparação do debate

A motivação foi a palestra de ‘Uthman al-Khamis, “O que você sabe sobre a religião dos xiitas?”, percebida por universitários do Kuwait como distorcedora. Pediram ao Centro de Pesquisas Doutrinárias uma resposta. Embora o Centro considerasse a palestra cientificamente frágil, a insistência dos estudantes levou-o a escolher um revertido para responder: o Dr. ‘Issam al-‘Imad. Ele preparou uma palestra-resposta, denunciando o potencial de fitna e reiterando seu objetivo desde que deixou o wahhabismo: dissipar a confusão entre doze-imamitas e ghulāt.

As fitas circularam no Kuwait e em países árabes (Rajab 1422 H), recebendo boa acolhida. Em Sha‘ban do mesmo ano, ‘Uthman iniciou palestras on-line (Paltalk). O Centro indicou novamente o Dr. ‘Issam para contrapô-lo na sala “al-Ghadir”; a sala “al-Haqq” convidou ‘Uthman a debater com ‘Issam em Shawwal.

Início e andamento

O debate começou em Shawwal 1422 H, com regras acordadas: unidade do tema, sem saltos. O Dr. ‘Issam condicionou o debate ao método do seu livro “O novo e correto método…” — aceito por ‘Uthman, que, porém, não cumpriu vários pontos:
– saía do tema, lançava tópicos paralelos;
faltou diversas vezes;
– alegou quedas de conexão em momentos críticos;
evitou responder perguntas;
quebrou a etiqueta do debate nas últimas sessões.
O Dr. ‘Issam, ao contrário, manteve foco e visou ao aproximar dos muçulmanos.

Frutos do debate

O debate ampliou horizontes dos ouvintes on-line; muitos revisaram convicções e adotaram a Escola da Ahl al-Bayt (a.s.). Entre os impactados, a Dra. Amina, marroquina(11), que anunciou seu esclarecimento diante de ‘Uthman numa das sessões.

A surpresa da retirada de ‘Uthman

Após a 15ª sessão, ‘Uthman retirou-se, adotando discurso de acusações e insultos. Em salas do Paltalk (“Ansār ‘Uthman”, “al-Sirdāb”), dias antes, ele expressara cansaço, desgosto e intenção de interromper os debates por dois anos, alegando esgotamento. Depois, divulgou fitas editadas, com cortes e inversões, especialmente no Kuwait e Iêmen.

Impacto global

Debates xiita–sunita costumavam ocorrer em círculos fechados; com este e outros, tornaram-se mais amplos, inclusive em canais satelitais. Isso removeu véus, permitiu aos doze-imamitas expor e fundamentar suas crenças e avaliar, à luz da crítica, posições de eruditos sunitas — prevenindo leituras acrí­ticas.

Notas e referências
(1) Referência a orientação salafi-wahhabita do meio familiar.
(2) Título do livro inicial do autor contra os xiitas.
(3) Al-Shahrastani, definição clássica de ghulū no contexto de apostasia.
(4) ‘Ali al-Sallus, al-Shī‘a al-Ithnā ‘Ashariyya fi al-Uṣūl wa al-Furū‘.
(5) Rabi‘ b. Muhammad al-Sa‘ūdī, al-Shī‘a al-Imāmiyya fi Mizān al-Islām.
(6) Trechos relatando conversões ao doze-imamismo.
(7) Nasir al-Qaffari, reconhecimento da preponderância do grupo doze-imamita em nosso tempo.
(8) Muhammad b. ‘Abd al-Rahman al-Maghrāwī, receio do avanço no Magrebe.
(9) Majdi Muhammad ‘Ali Muhammad, Intiṣār al-Ḥaqq….
(10) Citação sobre a impressão positiva dos jovens ao contato com doze-imamitas.
(11) Caso mencionado de reversão durante/após o debate on-line.